O Grupo de Pesquisa em Ictiologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ligado ao Departamento de Biologia Animal (DBA), anunciou a descoberta de uma nova espécie de lambari endêmica da região da Cachoeira Grande, no município de Canaã, na microrregião de Viçosa (MG). O trabalho foi publicado em 2 de dezembro na revista científica Zootaxa, em parceria com pesquisadores da UFMG e da UFAM. Batizada de Psalidodon canaaensis, a espécie ocorre exclusivamente naquele trecho da bacia do rio Doce — uma área atualmente ameaçada pela possível instalação de uma usina hidrelétrica.
A descrição da espécie teve início de forma curiosa. Entre 1990 e 2017, o então professor da UFV Jorge Dergam, hoje aposentado, coletou peixes na região e depositou os exemplares na Coleção Ictiológica do Museu de Zoologia João Moojen (MZUFV). Anos depois, o pesquisador Victor de Queiroz, ex-aluno da instituição e integrante do grupo Ictiologia, identificou características que indicavam se tratar de uma espécie inédita. Quando a professora Elisabeth Henschel assumiu a coordenação do grupo em 2024, revisou o material e confirmou a descoberta.
A espécie apresenta diferenças marcantes em relação a outros lambaris, envolvendo:
- Contagem e disposição das escamas
- Estrutura da linha lateral, usada para perceber vibrações na água
- Formato e número de dentes
- Padrão de coloração
Além da análise morfológica, exames de DNA reforçaram que se trata de uma linhagem evolutiva distinta. “A descoberta adiciona novas peças ao quebra-cabeça da evolução dos lambaris e representa a primeira espécie do gênero Psalidodon endêmica da bacia do rio Doce”, afirma a professora Elisabeth Henschel. A descoberta traz também um alerta. Segundo os pesquisadores, a construção de uma hidrelétrica na região pode levar o Psalidodon canaaensis à extinção, já que a espécie só existe na Cachoeira Grande. “Já investigamos toda a área ao redor e não encontramos outras populações. O alagamento causado pela usina comprometeria não apenas esse lambari, mas toda a fauna local”, explica Henschel. Movimentos comunitários têm se mobilizado para impedir o empreendimento.
O Grupo de Ictiologia da UFV atua no Laboratório de Sistemática Molecular e Biologia da Reprodução (Beagle) e reúne estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. A equipe trabalha para compreender a diversidade dos peixes de água doce em várias bacias brasileiras e também na África. Mais informações podem ser acompanhadas no Instagram do grupo.
