O professor Francisco Murilo Zerbini Júnior, do Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), figura entre os 17 cientistas brasileiros mais citados no mundo, segundo a plataforma Clarivate, empresa norte-americana especializada em análises de produção acadêmica e científica. A lista — referente ao período de 2014 a 2024 — foi divulgada neste mês e reúne pesquisadores de destaque em áreas como agronomia, biologia, ciência da computação, engenharia, física, medicina, matemática e psicologia. A Clarivate explica que o ranking é elaborado exclusivamente com base em citações bibliográficas, considerando apenas artigos que atendem às diretrizes dos Indicadores Essenciais Científicos (ESI), publicados em periódicos indexados na Web of Science e com impacto bibliométrico relevante.
Pesquisas com vírus que afetam plantas
Desde o início de sua trajetória na UFV, Zerbini — que também atua como assessor especial da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação — dedica-se ao estudo dos geminivírus, um grupo de vírus que infecta plantas de grande importância econômica. O professor relembra que, à época, a introdução de uma nova espécie de inseto vetor no Brasil favoreceu o surgimento desses vírus em vários estados.
“Nossos trabalhos iniciais, em colaboração com grupos de Brasília e São Paulo, caracterizaram esses vírus e mostraram que eram todos ‘nativos’, nunca antes relatados. Isso me levou ao campo da taxonomia, pois esses novos vírus precisavam ser classificados como novas espécies”, afirma. Em 2002, Zerbini passou a integrar o Grupo de Estudo de Geminivírus do Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV). Em 2016, ingressou no comitê executivo da entidade, da qual é presidente desde 2020.
Segundo ele, embora os estudos sobre geminivírus sempre tenham tido boa repercussão, foram as publicações na área de taxonomia, especialmente após 2016, que o impulsionaram à lista dos mais citados. “Os trabalhos com geminivírus repercutem quase exclusivamente entre virologistas que estudam vírus de plantas, que são poucos. Já os estudos sobre classificação e nomenclatura de vírus em geral — que abrangem organismos que infectam plantas, animais, fungos e bactérias — têm um impacto muito maior”, explica.
Sobre o mérito dos rankings
Presente no ranking da Clarivate na área de Microbiologia desde 2021, o professor destaca que muitos pesquisadores produzem trabalhos excelentes, mas em campos muito específicos, o que naturalmente gera menos citações. “Trabalhos mais aplicados tendem a ser menos citados do que pesquisas básicas, como as de taxonomia. Minha maior satisfação de estar nesta lista é divulgar o nome da UFV, uma universidade ainda pouco conhecida fora das ciências agrárias”, afirma.
Apesar disso, Zerbini lamenta o baixo número de pesquisadores brasileiros no levantamento. “O ranking completo tem 7.131 pessoas. A Coreia do Sul tem 76 pesquisadores, e a Bélgica, com apenas 11 milhões de habitantes, tem 81. Sabemos que a ciência é altamente segregada e que existe um citation bias — se um grupo brasileiro e outro belga ou coreano publicam artigos equivalentes, o brasileiro tende a receber menos citações. Mas só isso não explica a discrepância”, analisa. Para ele, as dificuldades estruturais da ciência no Brasil e na América Latina tornam ainda mais desafiadora a produção de pesquisas reconhecidas internacionalmente. “Diante de tantos obstáculos, é até surpreendente que tenhamos 17 brasileiros nessa lista”, conclui.