Uma estudante de graduação da Universidade Federal de Viçosa (UFV) participou de uma expedição científica à Ilha da Trindade, uma das regiões mais isoladas do território brasileiro, localizada a mais de mil quilômetros da costa. Durante quase dois meses, a futura bióloga Janaina Hokoç integrou uma equipe de pesquisadores dedicada ao estudo da biodiversidade marinha.
Janaina, que cresceu em contato com o mar em Cumuruxatiba (BA), cursa Ciências Biológicas no campus Viçosa e atua no Laboratório de Evolução de Invertebrados Aquáticos (Leia-UFV). A participação na expedição ocorreu a partir de um convite do professor Marcos Tavares, da Universidade de São Paulo (USP), à professora Amanda Cunha, coordenadora do Leia-UFV e especialista em hidrozoários.
Os hidrozoários fazem parte do mesmo grande grupo dos corais, anêmonas e águas-vivas e exercem importantes funções nos ecossistemas marinhos, atuando, por exemplo, como predadores, presas e formadores de habitats. Na Ilha da Trindade, Janaina percorreu diferentes áreas da ilha e realizou coletas em praias e pontos de mergulho. Foram encontradas diversas espécies de hidrozoários e outros invertebrados bentônicos, organismos que vivem em contato direto com o fundo dos ambientes aquáticos.
O material coletado agora passa por análises laboratoriais. Os pesquisadores avaliam características morfológicas dos organismos e fazem comparações com descrições científicas e exemplares já catalogados. Segundo Janaina, novos registros de espécies já foram confirmados para a Ilha da Trindade, e existe a expectativa de que outras descobertas sejam feitas durante o processo de identificação.
A expedição começou no Rio de Janeiro, de onde a equipe seguiu por três dias em um navio da Marinha do Brasil até a ilha. A professora Amanda permaneceu no local por cinco dias, enquanto Janaina ficou quase dois meses, retornando a Viçosa no início de setembro. O acesso à Ilha da Trindade é restrito e controlado pela Marinha. O local não possui população nativa ou fixa e as pesquisas científicas passaram a ocorrer com maior frequência a partir de 2009, com iniciativas apoiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Para Janaina, a experiência foi decisiva para sua trajetória acadêmica e reforçou o desejo de seguir na pesquisa científica. A estudante já considera continuar sua formação em nível de mestrado e, posteriormente, doutorado. A professora Amanda destaca que a participação da estudante também evidencia a diversidade das pesquisas desenvolvidas pela UFV, inclusive em áreas relacionadas aos ambientes marinhos, mesmo estando a universidade localizada no interior de Minas Gerais.
O projeto do qual a professora e a estudante participam é intitulado “Biodiversidade de macroinvertebrados bentônicos marinhos costeiros na Ilha da Trindade e Arquipélago de Martim Vaz (Brasil): taxonomia, afinidades zoogeográficas e diferenciação genética” e é financiado pelo CNPq. Para Janaina, a experiência resume a conexão entre Viçosa e o oceano: “Existe um pedacinho de mar em Viçosa, no nosso laboratório.”
