Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) alerta para os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade da Bacia do Rio Doce. A pesquisa aponta que 73% das espécies de árvores prioritárias para conservação analisadas poderão perder mais de 75% das áreas com condições climáticas adequadas para seu desenvolvimento até 2090. Publicado em agosto na revista científica Biodiversity and Conservation, o trabalho também indica que a atual rede de unidades de conservação (UCs) não será suficiente para proteger a flora da região no longo prazo.
De acordo com os pesquisadores, a combinação entre o histórico de desmatamento, a fragmentação das florestas, os impactos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, e o avanço das mudanças climáticas representa uma ameaça significativa para as espécies nativas da bacia.
A pesquisa analisou 26 espécies de árvores prioritárias para conservação. Deste total, 19 espécies, o equivalente a 73%, podem perder mais de três quartos de sua área climaticamente adequada até o final do século. Entre as espécies consideradas mais vulneráveis estão árvores raras e características da região, como o ipê-preto (Handroanthus arianeae) e a peroba-candeia (Grazielodendron rio-docensis), que apresentam risco elevado de extinção local. Segundo a doutoranda Cecília Loren Silva, primeira autora do trabalho, a situação da Bacia do Rio Doce é agravada por décadas de pressão sobre os ambientes naturais.
“A Bacia do Rio Doce, que já é historicamente marcada pelo avanço das pastagens, pela atividade de mineração e pela tragédia do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em 2015, enfrenta agora a grave ameaça do colapso climático de suas espécies arbóreas nativas.”
A pesquisadora explica ainda que, embora os efeitos das mudanças climáticas sobre a distribuição das plantas já sejam conhecidos pela comunidade científica, muitos estudos anteriores foram realizados em escalas continentais ou nacionais. O diferencial da pesquisa da UFV foi trabalhar com alta resolução espacial, permitindo identificar de forma mais detalhada as áreas vulneráveis dentro da própria bacia hidrográfica.
Outro ponto de preocupação identificado pelos pesquisadores é a capacidade das atuais áreas protegidas de garantir a conservação das espécies no futuro. As projeções indicam que grande parte dos territórios que continuarão apresentando condições climáticas favoráveis para as árvores analisadas estará localizada fora dos limites das unidades de conservação existentes. Por outro lado, a análise espacial identificou o extremo leste da Bacia do Rio Doce como uma região estratégica. O local deverá concentrar alguns dos refúgios climáticos mais estáveis para as espécies estudadas, podendo se tornar uma área prioritária para ações de conservação.
Para desenvolver o estudo, os pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Evolução de Plantas, do Departamento de Biologia Vegetal da UFV, reuniram registros públicos de ocorrência das espécies e informações obtidas em inventários florestais realizados em 22 fragmentos da Bacia do Rio Doce. Os dados foram cruzados com informações sobre temperatura, precipitação, relevo e características do solo.
Por meio de algoritmos de modelagem computacional, a equipe simulou as condições ambientais necessárias para cada espécie diante de diferentes cenários de emissões de gases de efeito estufa projetados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). As projeções consideraram os anos de 2050 e 2090. Posteriormente, os mapas produzidos foram comparados com o uso atual do solo na bacia, permitindo estimar a perda efetiva de habitat para as espécies.
Para os pesquisadores, os resultados podem contribuir diretamente para o planejamento de ações de restauração ecológica, conservação ambiental e políticas públicas na Bacia do Rio Doce. A expectativa é que os mapas e projeções auxiliem órgãos ambientais, gestores públicos e instituições envolvidas nos projetos de reparação da região a definir áreas prioritárias para investimentos.
A identificação antecipada dos territórios que deverão manter condições climáticas adequadas poderá orientar projetos de reflorestamento e a criação ou ampliação de áreas protegidas, priorizando os chamados refúgios climáticos. Segundo os autores, essa estratégia pode aumentar a efetividade das ações de conservação e garantir melhores condições para a sobrevivência das espécies nativas nas próximas décadas.