Uma pesquisa internacional publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revelou que a qualidade da paisagem ao redor de remanescentes florestais pode ser decisiva para a sobrevivência de espécies de aves. O estudo mostra que melhorias nessas áreas podem aumentar significativamente a capacidade de retenção de espécies, mesmo quando os fragmentos de floresta são pequenos ou isolados. A chamada “matriz” — que inclui áreas agrícolas, pastagens ou vegetação nativa no entorno das florestas — exerce papel fundamental no deslocamento das aves entre os fragmentos. Segundo os pesquisadores, essa é uma das evidências globais mais robustas já reunidas sobre o tema.
O trabalho analisou dados de diferentes regiões tropicais do planeta, comparando comunidades de aves em ilhas oceânicas e fragmentos florestais. Entre os autores está o professor Rômulo Ribon, do Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa, que contribuiu com informações coletadas em áreas de mata nativa nos municípios de Viçosa, Paula Cândido, Cajuri e Coimbra, em Minas Gerais.
De acordo com o pesquisador, a forma como a paisagem é organizada ao redor das florestas pode ser tão importante quanto o tamanho dos fragmentos. “Por décadas, a ecologia tratou esses ambientes como ‘ilhas’ isoladas, focando principalmente no tamanho e no grau de isolamento. No entanto, esse modelo deixou em segundo plano um componente essencial: a matriz”, explicou.
O estudo destaca que nem todas as aves conseguem atravessar grandes áreas sem cobertura florestal. Por isso, ambientes com maior presença de árvores, mesmo que em pequenas porções, facilitam o deslocamento, aumentam o acesso a recursos e reduzem riscos. Os resultados mostram que áreas com vegetação ao redor dos fragmentos sustentam comunidades mais ricas, especialmente de espécies que dependem estritamente da floresta. Pequenos agrupamentos de vegetação a até 300 metros já apresentam impacto positivo significativo na sobrevivência das aves.
A pesquisa reforça a necessidade de estratégias de conservação mais amplas, que não se limitem à proteção de áreas isoladas. Medidas como o plantio de árvores em propriedades rurais, a criação de corredores ecológicos e a recuperação de vegetação nativa podem ampliar de forma expressiva a preservação da biodiversidade. “Pequenas mudanças no uso da terra podem gerar grandes impactos na conservação das espécies”, concluiu Rômulo Ribon.